terça-feira, 20 de abril de 2010

Um dia de Pesca/Alto Mar



Um dia de Pesca/Alto Mar

Toca o despertador, com a mão esquerda ainda dormente dou-lhe um safanão, são quatro da manhã, a noite ainda esta escura e o calor dentro de mantas quase que me faz desistir da viagem ensonada para Peniche.
Mas o prazer da pesca é maior que o sono que me domina, pé ante pé lavo a cara e visto a roupa que no dia anterior tinha preparada em cima da cadeira ali ao lado junto da televisão, retiro do frigorífico que fica logo ali, por debaixo da televisão ao lado do caixote do lixo e da secretaria do quarto, enfim tudo bem aconchegado num quarto pequeno mais parece de fim de semana do que de semana. Verifico os iscos que pernoitaram dentro dos cinco graus, recolho a água fresca, fiambre, chouriço, queijo e uma garrafa de vinho tinto que pelo grau me vai ajudar aquecer lá para hora de almoço no mar alto. O material de pesca já se encontra no carro, devidamente verificado no dia anterior não vá faltar alguma coisa e depois de entrar mar dentro não há volta a dar.
Faltam-me uma hora e meia de caminho até ao local da lancha na marina de Peniche.
Ligo o carro e sintonizo a rádio no 91.7 ouço as noticias das e fico atento ao estado do tempo factor muito importante para quem se vai lançar mar a dentro numa casca de nós de nove metros. Percorro sossegadamente a A8 despida de carros só as luzes da publicidade ao longo da mesma me fazem companhia e de tempos a tempos um pesado que leva a sua carga até a capital.
Entro na nova estrada e sinto no ar o cheiro a mar, aproximo-me de Peniche e o pensamento é só no tempo dele depende a nossa ida ao mar.
Lá esta ela dormitando ainda com as amarras bem presas, descarrego o carro e só de material vai para cima de vinte quilos espero trazer muito mais.
Fazem-se os cumprimentos habituais e esfumava-se um cigarro quer dois.
Chega o timoneiro “Srº Fernando” dono e capitão costa da embarcação que nos vai levar então para lá das Berlengas. São sorteados os lugares e depois começa o ritual da preparação das canas dos iscos e mais um cigarro. Encostados uns nos outros e com histórias de mar lá vamos entrando salto a salto pelo mar dentro deixando de se ver Peniche e a pedra das Berlengas entrar pelos olhos dentro.
Aproximo-me do “Capitão” assim lhe chamava ao “Ti Fernando” como tem sido os dias de pesca antecedentes. O que ele respondia – “Na ultima vez que saímos tivemos sorte encontramos bons pesqueiros e a malta ficou toda contente com a faina realizada” como eu dizia era sempre no dia anterior, por vezes até falava com os amigos vamos enganar o “Ti Fernando” um dia destes nas datas e aparecemos um dia antes, já que nesse dia há sempre muito peixe. Histórias do mar que o tempo leva.
Aviso de que estamos a chegar ao pesqueiro, eis que todos deixam as palavras para se colocarem na posição de ataque ao peixe. Verifica-se por ultimo a colocação dos iscos cana na mão e esperamos a voz do “Capitão” :- Podem atirar.
Já sabemos pelas indicações que este pesqueiro tem setenta metros de profundidade existem algumas rochas o que é bom e que o mar lá por baixo esta revoltoso, o que indica que o peixe anda a comer.
O zunir dos carretos máquinas que transporta cerca de 200 metros de fio, indica a descida vertiginosa dos pesos e dos iscos até ao local do mangar. Parou sinal que bateu no fundo, a técnica aqui é pessoal por isso uns deixam no fundo, outros levantam ligeiramente procurando a qualquer momento o picar do peixe. Ai está ele a primeira “ferrade-la” pelo dobrar da cana sei que é um sargo peixe que buscamos constantemente.
São 08h30 bom sinal para este dia que vai ser longo, porque a largada será só pelas 16h30 e entretanto já se decidiu que o almoço vai ser caldeirada de peixe. Aqui todos participam, com o peixe e o ajudante do “Capitão” faz o almoço para que esteja pronto ás 12h00 caso o peixe nos deixe comer.
As horas serão quase sempre iguais só modificando o local de pesca caso não esteja a dar peixe, procura-se lugares melhores e num passear por este mar, trocam-se gargalhadas e largam-se algumas cargas ao mar para estômagos mais delicados.
Paragem para almoço e a manhã tem sido bem produtiva, a diversidade do peixe é do agrado de toda a gente.
Agora uma pausa curta para comer neste dançar do barco que vai exigir a todos atenção e claro sempre com as canas na água. Trocam-se aperitivos e prova-se os vinhos tudo se faz rápido porque a nossa vinda é pescar e não apanhar sol.
De tarde faz-se os meus rituais da manhã agora um pouco mais relaxados porque o cansaço começa a notar-se. Por fim desejamos chegar a terra. Arrumam-se os aparelhos limpam-se as canas e guarda-se o peixe nas arcas depois de bem lavados com água nova e cobertos de gelo fecham-se as arcas. Uma cerveja, um pastel de bacalhau enfim momento de descontracção e lá vamos nós rumo novamente a Peniche. Agora é tempo de descanso e de dormitar, depois um bom banho e dormir que o outro dia está para chegar.

Baldios


Verdilhão

Terra de ninguém por onde andei na minha infância de armadilhas ao penduram na cinta franzida dos meus treze anos mal feitos.
Esperava pela madrugada pelo assobio da “coruja” sinal que o Zé o meu vizinho que mais tarde veio encontrar-se novamente comigo na vida profissional, me esperava para então deitarmo-nos ao caminho na busca dos baldios.
Como os quilómetros nesse tempo eram curtos, lá para os lados de “França” aldeia escondida na serra de Montezinho, era o nosso destino. Aí pela encosta acima reinava a passarada de varias cores e tamanhos, queríamos os melros mas esses era de raça fina, ficavamos com os pardais, difíceis de apanhar com estas formiguinhas de asa a dar a dar.
Á chegada não havia tempo a perder porque estávamos longe de casa e teríamos de voltar antes que a nossa mãe desse pela nossa falta, o que sempre acontecia.
Sentados olhávamos em nosso redor a tirar a estratégica de ataque à passarada, escolhíamos as melhores posições enquanto numa azáfama colocávamos no fusivél a formiga de asa, excelente isco para passarada.
A grosso modo tínhamos cerca de dez dúzias de armadilhas, levantávamos ainda com um pedaço de pão mal comido e lá íamos colocar a nossa primeira. Sempre com a inclinação devida com a formiga solta das asas para que pudesse esvoaçar e assim com o reflexo do sol conseguir chamar atenção dos pardalinhos.
Com um “xacho” numa mão fazíamos uma pocinha inclinada onde era colocada a armadilha e assim sucessivamente de árvore em árvore percorríamos alguns quilómetros. No final da ronda só havia tempo de beber um pouco de água e dar mais uma dentada na sandes que tinha sobrado e recolher as armadilhas umas com a presa bem agarrada, outras sem nada.
Hora do regresso, lá no alto na varanda virada para serra, a minha mãe como eu a sentia a esta distância. Mas era o correr por gosto teria agora de suportar as mazelas do corpo com um sorriso.
Pendurados ao pescoço e todos entrelaçados uns nos outros pardais, melros, verdilhão, etc. Chegara a hora de os depenar tarefa que me irritava mas come-los com penas não dava jeito. Então no “borralho” da casa do Zé, com lenha e brasas qb. Assadinhos eram o nosso petisco depois de seis horas de caçada. Este ritual manteve-se durante muitos e bons anos, não havia Internet e as pessoas brincavam despreocupadas na rua.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um pedaço…




Entro na carruagem fria e escura pelo meio da noite onde o céu estrelado me deixa para trás a imagem de uma cidade cinzenta. Ali mesmo ao meu lado um aquecedor que pela etiqueta já teve dias melhores por onde sai umas golfadas de ar, com o andar do comboio se entranha pela carne e se aloja nos ossos.
O relógio pendurado do outro lado dos carris marca meia-noite e trinta nem mais um minuto.
Um apito agudo percorre os meus tímpanos e dá-me a única alegria do dia, estou a viajar novamente o que sempre me deu grande prazer.
Seria uma noite como tantas outras nos corredores do “Expresso da Meia Noite” como era conhecida nesse tempo.
Há muito que o Inverno tinha passado mas teimava em aquecer estes lugares onde gentes se amontoavam pelos corredores na esperança de tempos melhores.
O início da viagem pelos campos de laranjeiras já despidas delas com as suas folhas meio amareladas e na mente outros mais verdes lá para os lados de Jaén. Entravamos no coração da Andaluzia e fermentava a revolta “Golpe de Estado na Espanha em 1981” comandado pelo tenente-coronel Antonio Tejero.
Foi bonito de se ver pelas ruas, tanques, Guarda Civil e todos os militares chamados aos quartéis, a estação estava a pinha e em meu redor pessoas civis como eu, escutando o rádio com o que se estava a passar, afinal não era um filme que estava a ser rodado mas sim o referido atentado.
Na busca de trabalho nessa época apanha da azeitona, logo o desejo de viajar me encheu novamente o peito e lá fui eu num desses comboios carregado de militares que se dirigiam para Norte de Espanha onde se encontram alguns dos mais importantes quartéis militares. Ai estava eu no meio do verde predominante ouvindo histórias de caserna e alguns rostos apreensivos sem saber para o que iam.
Foram longas as horas de travessia desde o mediterrâneo ao mar do norte. Mas na desconfianças de uns nas gabarolices de outros lá se foi passando o tempo, farto de comboio resolvo sair antes da última paragem e fico-me por Lugo. Rebusco os meus apontamentos e verifico que tinha amigos por ali perto.
Será uma outra viagem, porque foram trinta dias de uma vivência sem precedentes na minha passagem pela Galiza.
…/…

terça-feira, 13 de abril de 2010

Uma tarde à beira mar...



Era uma tarde como tantas outras, lá fora o vento amainara e as gaivotas voltaram ao mar. A espuma branca dissolvia-se no azul imenso que meus olhos alcançavam deste horizonte distante de tudo e de todos.
Esta calma que por mim entrava me aconchegava os ossos e me fazia sonhar por um mundo que em breve me iria deixar partir.
Ali mesmo há minha frente brincava ele na areia com balde azul tão azul que se confundia com o mar, do outro lado debaixo de um guarda sol de pele lisa brilhante o outro que olhando para sua mãe mandando-lhe um sorriso pelo seu bem estar.
Como tudo estava calmo o ar, mar, sorriso e até eu que me tenho sentido irrequieto nestes últimos dias. Será da mudança? Será da Primavera? Um dia virei a saber talvez seja tarde depois de me deitar e levar comigo este quadro que desejo não esquecer.
Um cão passa numa correria e me acorda deste meu pensar, lá vai ele pulando e procurando um pau sim um pau tão simples como isso é a sua alegria encontrar e entregar ao seu dono que num assobio metódico o chama pausadamente.
O sol esse deseja beijar o mar e misturar-se com ele. Lá longe nas voltas das ondas um vela se aproxima lentamente com seu capitão no leme de mão firme e segura cortando-as serenamente. Desliza como não toca-se nelas e vem direitinho ao seu porto de abrigo ali mesmo ao nosso lado.
Recolhem-se os brinquedos, guarda-sol e pegando nele ao colo levo-o pela areia fina que deixa um rasto na minha passagem. Ali mesmo ao meu lado o mais velho triste como sempre por voltar das voltas do mar e porque o sol assim ditou a nossa ida.
Ela segura nos seus passos firmes caminha a minha frente deixando para trás um odor a “Amor Amor”"Cacharel que se infiltra nas minhas narinas e deixa-me parado no meu sonho.
É o regresso e fica na memória um dia bem passado, onde os odores se misturaram entre o que é belo que o que se deseja.
É uma tarde das tardes mais bem passadas que por ali passei.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um dia para esquecer…



Deixei-me levar por momentos pelo som do clarinete que se esforçava por não desafinar. Suava em bica não que a pauta fosse de difícil execução mas pelo tempo e dos quilitos a mais.
Uma gota salgada bate na sobrancelha direita, deixando por momentos com a sensação de que iria deixar de ver o que seriam o meu fim como clarinete principal da banda com 100 anos de história.
Ela lá fez um desvio e passou ao lado do seu medo. A chuva começa a cair de mansinho e como diz o povo “chuva molha tolos” foi assim no restante do trajecto que durou mais de 45 minutos de um passeio ensopado.
Por fim no parapeito da igreja sacudia da minha cara as gotas que tanto me tinham enervado além de estar completamente encharcado, mas tudo pelo amor à arte de fazer parte da Filarmónica da terra onde por mero acaso a Mariazinha “a minha vizinha que há muito tento uma conversa” de olhar celestial e que me faz companhia lá mais á frente com a sua flauta transversal.
Eis que chega o mordomo da festa indicado que o repasto está pronto na tasquinha dos “Marialvas” a mesa havia um pouco de tudo o que faz bem ao meu colesterol, chouriço caseiro, presunto, bolinhos de bacalhau com um toque de salsa, pão caseiro, broa de milho (como esta amarelinha), sumos, água e vinho para os mais velhos.
O Ricardo aproxima-se (amigo da turma) trás consigo a Mariazinha e logo que avisto corei de tal forma que se podia ver que a febre estava a subir. Ele toca trompete e logo manda uns acordos para uma desgarrada que sempre acontecia quando estávamos em pausa da festa. Outros se aproximam, Felipe da pandeireta dando uns arrufes a condizer estava montada a festa novamente.
Eu com o olhar na Mariazinha deixava chorar o clarinete com uma mágoa tal que até ela ficou sentida com tal execução. Abraçou-se ao pescoço do Ricardo e deu-lhe um beijo… o clarinete até parou, disse que ia á casa de banho e afastei-me com essa agonia no coração.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sentimento...

Uma manhã como tantas outras, o vento assobia e as árvores deixam cair a pouca folhagem, com os abanos matinais.
Dentro do quarto num dormitar profundo uma criança num respirar ofegante deixa-se levar pelo seu imaginário e decide aos solavancos acordar-me. Sorrio e sinto dentro de mim um pouco dele, no olhar sem compromisso no piscar dos olhos ainda desconcertados. Levanto-me pé ante pé e com os olhos cerrados, pelo gelo do caminho, faço-lhe a sua bebida predilecta;
- seis colheres de leite com 180 de água.
Depois embalo-o no meu colo e aprecio a sua fome faminta que o faz de olhos fechados num compasso de grande mestria. Penso eu -como a natureza nos surpreende todos os dias!
Nascer para sobreviver numa terra do nunca sem saber o quanto vai sofrer.
Isso desejo eu que ele não sinta na sua pele o que eu senti, porque este Mundo em mudança há muito que se transformou. “Um dia um professor de um lugar distante resolveu chumbar uma família pelo actos que não praticaram” hoje um professor passa os alunos que queria chumbar mas que nada pode fazer, por actos esses sim que eles praticaram.
É nesta barcaça que meu filho vai entrar e percorrer o leito de um rio que outrora rejubilava de água límpida, cardumes serpenteando as clareias de areia fina tentando chegar a bom porto. Mas esse tempo vai passar devagar lento como deve ser, sem pressas, sobressaltos para que possa assimilar palavra a palavra os ensinamentos da Vida.
Queria volta um pouco atrás, nas “Viagens da Minha Terra” nos dias da partida.
Horas mais que muitas nos distanciavam da chegada.
Precisamente seis horas do tempo da curva e contra curva, do monte que repetidamente subia-se e descia-se olhando as amendoeiras em flor no seu tempo e o manto branco nos três de Inverno. Não víamos a hora de chegada que era curta porque um dia era de viagem.
Felizes nesse tempo, nos corredores da casa havia alegria, comida e brincadeiras de ocasião, havia uma mãe um pai presente a mãe mais, porque gostava de dar trabalho há vassoura, como era “dura” mas boa mãe. Hoje desejo que eles cresçam como amigos irmãos e que se ajudem nas dificuldades do dia a dia.